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quarta-feira, 30 de março de 2016

palavradas

palavras aladas
atadas por cordas,
saem, em hordas,
de dentro de mim,

contando que

palavras lavradas,
presas à terra,
enraízam quem erra,
dentro de mim,

doendo, porque

palavras mentidas,
mentira-esparrela,
chegaram-se dela
e armaram-se em mim,

preu cair, morto.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Viking

braços e remos
prumam...

estrela polar
horizonte escuro
destino incerto...

vento favor
proa no mar
remar sem cansar
rumar, rumar...

estalam, gemem
popa, proa e leme...

vela içada
seguir estrela
o Norte à frente

memória ingrata
saúda a dama
que em terra firme
aguarda a volta...

que volta?

Corpo indolente
traz para a luz
o vento que corta...

corta na carne
sem piedade
frio e infame
vento saudade!

o fim do mundo
nos aguarda
hordas sem fim
de bravos sem nome
em lanças-escudos...

e o fim de tudo
ao alcance das mãos,
num grito mudo...

Liberdade por fim!

um remar sem temer
num sangrar de saudades
da dama que abriga
o rebento que cresce...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pensamento número dois

É paradoxal a busca incessante pelo prazer de uma aspiração atingida.

Geralmente o prazer é bem menor do que parecia no início do caminho.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Garganta

Tudo vira verso:
Tanto falta,
quanto excesso...

O tempo remedia,
tanto o que dói,
quanto o que angustia...

De tudo a vida se encarrega:
tanto do que se aceita,
quanto do que se nega...

E acerca de tudo o poeta versa:
Naquilo que versa e expressa,
Mais daquilo que à garganta

Atravessa...

A vida de um poeta

Dúvidas sempre cercam,
o pensar de escritor pesaroso:
É sabido que afetos afetam,
seu cunhar mais meritoso...

O poeta não é instrumento,
nem sua pena à qualquer outro serve:
É fruto de seu próprio tormento,
ou de algo que o enerve...

Um poeta nunca é breve,
(o que é breve não é fecundo)
e um poeta só sente-se leve,
ao tratar de algo profundo...

Enquanto usa de enxada,
as suas maiores astúcias,
revolve como toada,
o arado de suas angústias...

E tira mais que proveito,
ao buscar seu entendimento:
Por vezes algum deleito,
nesse ou naquele tormento...

Tal labuta laboriosa,
o tempo de toda essa lida,
dessa lida astuta e formosa,
é o tempo de uma vida:

Uma vida em verso e prosa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Viver no futuro não é viver

Viver no futuro,
ignorar o agora,
é tiro no escuro,
cultivar a demora...

...ou ficar sobre o muro...

Deixarei-te ir,
indecisão, não tolero!
Podes portanto, partir:
Teu retorno,
não mais espero...

...ou mesmo quero...

O que terás de mim?
Sempre descrença!
E um naco assim,
de indiferença!

Não há indeciso,
ou procrastinador*,
que algo mereça,
de minha querença...

...ou de meu amor...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Motivação

Mas o que forja o poeta?
Questão primaz esta,
a ser portanto respondida:
Um tanto quanto de desmedida,
paixão não correspondida...

E alguma ausência de sorte,
numa experiência de quase morte...

E uma inquietude doída,
que remédio algum ameniza,
tal qual aberta ferida,
que o tempo não cicatriza:

Sobretudo, desconhecimento:
É decerto questão futura,
para além do firmamento.

Sobra então manter postura,
e abstrair-se do tormento,
inflar alguma vela,
e deixar-se ir ao vento.

Na vida não há manual,
que dirá então previsão,
distância entre bem e mal,
ou espaço para revisão.

Que venha então o vento,
pois as velas estão infladas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Descarte

Talvez para mal,
quiçá para bem,
agora os tem...

Que sejam diminutos,
os cinco desesperados,
torpes e débeis,
por certo inférteis,
tais cinco minutos...

Desfrute tal tempo,
no vão intento,
que julgas arte:

Faça seu juramento.
Juro minha parte,
pelo Santo Firmamento:
Tudo que disseres,
Destino terá: Descarte.

Só se quiseres

Se achares que tens de voltar, volte
se pensares ser melhor me deixar, solte
as amarras, as cordas e os medos
esqueça os segredos, as bocas e caras...
E vá.

Mas se queres voltar, saibas
que embora a saudade de ti
em meu peito já não caiba,
sobra a desilusão que vivi
certo rancor, e alguma mágoa...

Se queres mesmo voltar,
não penses apenas aportar,
não venhas por vir: demores!
Não chegues a passeio,
pois muito anseio, que ancores.