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quarta-feira, 30 de março de 2016

estreitempo

o tempo espreita
sem ser notado,
e se estreita,
ao morrer calado.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

33

Me movo pelo mundo ou o mundo se move por mim?
Passo pelo mundo ou o mundo passa por mim?
Sou parte do mundo ou o mundo é parte de mim?
Sou parte do mundo ou o mundo parte de mim?

São 33 anos,
são 33 vidas,
às vezes mais e noutras menos,
são.

Passo pelo tempo,
E o tempo é o lugar que o espaço ocupa:
O tempo é a forma de não pirar da cuca.

São 33 anos,
são 33 vidas,
às vezes mais e noutras menos,
louco.

Passo pelo tempo,
e no tempo me movo e estou contido:
O tempo é o meio em que sou vivido.

Me movo pelo tempo ou o tempo se move por mim?
Passo pelo tempo ou o tempo passa por mim?
Sou parte do tempo ou o tempo é parte de mim?
Sou parte do tempo ou o tempo parte de mim?

São 33 anos,
são 33 vidas,
às vezes mais e noutras menos,
lúcido.

Passo pelo mundo,
E o mundo é o lugar que o tempo acontece:
O mundo é o agora que o processo merece.

Me movo pelo processo ou o processo se move por mim?
Passo pelo processo ou o processo passa por mim?
Sou parte do processo ou o processo é parte de mim?
Sou parte do processo ou o processo parte de mim?

Mundo, tempo, processo,
amor, espaço e divino,
enquanto no tempo não cesso
(e espero que tarde o Destino),
pelo Presente, presente passo,
atento ao que passa pelo cristalino:

São 33 anos,
são 33 perspectividas.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Carnaval

Que eu seja o coveiro que enterra a decência,
e que eu seja o terno do coveiro,
preto e fúnebre,
e que eu seja o funeral inteiro,
e as mãos enlutadas levando o caixão,
e a tristeza que não veio.

E que eu seja paetê e a pá e a terra,
e me derramem sobre a decência,
para que eu a sinta fria e morta sob mim.

E que eu seja a viúva e que eu não chore,
pois decência alguma merece lágrimas.

E que eu seja livre para a volúpia e a luxúria,
E que eu trepe e sambe sobre o caixão da decência,
E que eu seja meio do mais intenso carnaval,
diabolicamente divino,
divinamente humano e mortal,
quase que candidamente insano.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Produto

Que sou eu
senão fim
de meus meios?

Que é coragem
senão temer
ter receios?

Que é viver
senão privar-se
de anseios?

Que é distar
senão partir errante
ou manter-se distante?

E que é morrer
Senão ao pó voltar,
Triunfante?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Viking

braços e remos
prumam...

estrela polar
horizonte escuro
destino incerto...

vento favor
proa no mar
remar sem cansar
rumar, rumar...

estalam, gemem
popa, proa e leme...

vela içada
seguir estrela
o Norte à frente

memória ingrata
saúda a dama
que em terra firme
aguarda a volta...

que volta?

Corpo indolente
traz para a luz
o vento que corta...

corta na carne
sem piedade
frio e infame
vento saudade!

o fim do mundo
nos aguarda
hordas sem fim
de bravos sem nome
em lanças-escudos...

e o fim de tudo
ao alcance das mãos,
num grito mudo...

Liberdade por fim!

um remar sem temer
num sangrar de saudades
da dama que abriga
o rebento que cresce...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A maior prisão

Animais estes, tentam ser deuses,
e ver suas vozes ouvidas,
pois temem poder do silêncio:
Ele mostra as reais medidas...

É no silêncio que se medita,
onde se mostram as verdades,
se desfazem crenças benditas,
e perdem valor, tolas vaidades.

No silêncio vê-se quão finito,
é o alcance da mente humana,
e dado sentir tão restrito,
que à alma o sentir profana...

e engana...

A alma sim, irrestrita,
presa à cinco formas de visão,
deseja livre, e então constrita,
anseia expirar, de sua prisão...

e respirar...

No silêncio reside a alma,
é ali que faz morada,
e é nela que está o trauma,
e é ela que à morte aguarda...

Liberdade...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Estocástico

Dado que A ocorreu,
(e o pobre Zé Morreu),
e dado que o Zé não sou eu,
fustigar o tempo que falta...
variável aleatória e peralta,
de um processo estocástico,
que eu não controlo,
ou processo de Pois(s)on,
independente e distribuído identicamente,
o tempo restante é uma variável aleatória,
(e sem memória)
não depende do quanto vivemos,
o tempo que inda temos...

Poisson para os saltos,
amplitudes variam, para cima e baixo,
como Poisson composta,
na roleta da existência,
cada aposta,
esperança desconhecida, e função não conhecida,
de probabilidade cumulativa,
para o tempo que resta de vida...

E um dia, o 1 chega...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Funeral à céu aberto

O centro quase parou,
muitos vieram pra ver,
a vida que então cessou,
embaixo de um carro vermelho.
-
Alguns viram das calçadas,
outros, nem ver quiseram,
uns amontoaram-se às sacadas,
e mais pessoas vieram.
-
Ambulâncias então chegaram,
o trânsito foi desviado,
e homens da lei cercaram,
malogrado carro vermelho!
-
Levaram o corpo sem vida,
restante, apenas matéria,
a alma portanto exaurida,
seguiu em jornada etérea.
-
O guincho com o carro partiu,
mas há vermelho no chão,
da vida que se extinguiu,
de um filho, pai, ou irmão,
-
d'algum outro qualquer,
que chance teve, sequer,
do que narra o desconhecido,
estar por perto pra ver:
-
Seu ente amado e querido,
embaixo de um carro... morrer...

domingo, 13 de junho de 2010

À Dulce Maria

Ao saber que morreria,

escrevera à razão de suas alegrias,

que atendia por Dulce Maria,

o experiente Marinheiro...



...


"À Querida de meus versos, minha Dulce Maria:




Em cada porto que ancoro,

Em toda boca que beijo,

teus lábios é o que devoro,

pois tudo o que mais ensejo,

é um muito de teu sabor,

e um mundo de teu furor!


Nem um pouco, nem um naco,

serei louco, se for parco,

o quanto disso de ti eu tiver...


Venha isso como vier,

que seja intenso e verdadeiro,

aos borbotões, mas muito mesmo,

tão forte, tão por inteiro,

que leve a vagar a esmo,

o mais vivido dos marinheiros!


Tal qual nau a deriva,

na imensidão do mar perdida,

esse sentir que então não priva,

nem teme qualquer ferida,

tal sentir, que não se esquiva...


Peito aberto, rumo o desconhecido,

Busco o sentir que traz à vida,

aquele sentir mais desmedido,

daquele querer, tão sem medida!


Já não sou eu tão mais forte,

me tire da escuridão inerte,

dê-me portanto um norte,

pois sei a data que vem a Dama...


...Aquela que não aceita flerte..."

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Motivação

Mas o que forja o poeta?
Questão primaz esta,
a ser portanto respondida:
Um tanto quanto de desmedida,
paixão não correspondida...

E alguma ausência de sorte,
numa experiência de quase morte...

E uma inquietude doída,
que remédio algum ameniza,
tal qual aberta ferida,
que o tempo não cicatriza:

Sobretudo, desconhecimento:
É decerto questão futura,
para além do firmamento.

Sobra então manter postura,
e abstrair-se do tormento,
inflar alguma vela,
e deixar-se ir ao vento.

Na vida não há manual,
que dirá então previsão,
distância entre bem e mal,
ou espaço para revisão.

Que venha então o vento,
pois as velas estão infladas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Dois relógios

Dois relógios

Sete dias na semana
largos passos, nobre tempo
Sendo março ou janeiro,
marcha escasso e zombeteiro.

No relógio de pulso o tempo,
é como o próprio tempo se vê,
o relógio de areia já mostra,
o que a vida não tenta esconder:

No pulso o ponteiro circunda
e fim jamais ele encontra,
a areia mostra a verdade
que ao que é vivo conta:

Enquanto a areia desce,
o tempo se esvai astuto,
e um minuto que a vida acresce,
é um minuto que vai, arguto.