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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Tristranhos

Abraço a tristeza como uma velha amiga que me traz versos. Flertamos, antecipando um coito impuro e incomedido. Trepamos. No fim, ela me abraça, e não me quer deixa ir: Diz que sente minha falta, que tem saudades de meus versos, e que eles eram tão seus, e que tem ciúmes das coisas, segundo ela menos bonitas, que tenho escrito às outras. Ela diz que gostaria de estar nas linhas que tenho escrito, e diz que éramos um, feito carne e unha. Eu a fito, nua, e sorrio. Eu a fito e olho dentro dela com a propriedade de quem a conheceu como poucos. Olho dentro dela apenas por olhar, sem rancor ou saudade. Estamos ali, ocupando o mesmo quarto, mas não mais a mesma alma. Eu a solto e me afasto, e ela se vai, silenciosa. E, enquanto termino esses versos, já somos estranhos.

quarta-feira, 30 de março de 2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Estando

Sou estar.

Um estar constante e perecível,
e um tanto sensível à lua cheia,
sou coração e alma e processo,
e pele e carne e sangue e veia,
que pelo tempo trilha:
Sou essa ilha, sou essa aldeia,
em meio ao instante gasto,
e não sou puro e nem sou casto,
nem alheio ao pasto e ao ar,
por ser vida e biologia,
levo essa Vontade de arrasto,
bastarda filha do respirar,
se expandindo pelo lastro,
desse escuro e vasto Universo:
Sou de Deus o Verbo e o Verso,
divino réu confesso vagando errante,
uma ilha-aldeia em meio ao instante,
que nem sabe porque existe.

Mas sou feito de amor e éter,
que por ter sido e ser, insiste,
em viver por respirar,
e respirar por aprender.

Sou crença que perpetua no tempo,
por insistir e crer que há razão de perpetuar-se,
nada mais, nada menos:

D'Eus.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Carnaval

Que eu seja o coveiro que enterra a decência,
e que eu seja o terno do coveiro,
preto e fúnebre,
e que eu seja o funeral inteiro,
e as mãos enlutadas levando o caixão,
e a tristeza que não veio.

E que eu seja paetê e a pá e a terra,
e me derramem sobre a decência,
para que eu a sinta fria e morta sob mim.

E que eu seja a viúva e que eu não chore,
pois decência alguma merece lágrimas.

E que eu seja livre para a volúpia e a luxúria,
E que eu trepe e sambe sobre o caixão da decência,
E que eu seja meio do mais intenso carnaval,
diabolicamente divino,
divinamente humano e mortal,
quase que candidamente insano.

Dia de Sul

O sol repousa, manso,
sobre o campo verde,
e a garoa fina
perfuma a terra.

O que dizer que não disse o dia?

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Do real

O real é a sopa feita de todas as coisas
que ingerimos de alguma forma,
e o real é a Energia que se submete
à Norma de estar no tempo.

O real é essa pintura que fazemos,
dentro e sempre dentro de nós,
e sobre a tela que temos,
e com as cores das quais dispomos,
mal acabada, pobre e torta como somos.

O real é uma mentira que contamos,
para a parte de nós que vê e sente:
Mentira rota sobre o que é o Presente.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Rosamarelouro

O dia amanheceu cinza
e ela viu pela janela
o leve estalar dos galhos
das árvores do pomar

E quis o dia mais bonito
fugir do cinza
e ser mais leve que o ar
e no sonho se fez balão.

E o vento consentiu
e partiu a menina-balão
a colorir o céu
com seu rosamarelouro...

E sobre o azul-imensidão
ao sabor do vento-brisa,
jogou bola com os deuses
e sorriu, enfim livre...

Afago

Meu pensamento suprimiu o espaço
cavalgou o etéreo e te encontrou,
em meio a um sonho meu!

E eram flores que vinham de ti
coloridas e perfumadas e em profusão

E senti o sentir de um afago teu:
Um arrepio do início ao fim d'alma
seguido da paz de um Buda
em cada canto do meu espírito.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Seu

Seu


Nem o ar que infla seus pulmões

Nem a água que compõem

os tecidos e órgãos


Nem o cálcio que forma

ossos


Tudo foi emprestado,

roubado da mãe Terra


Nem você é seu

Porque nada é

real e definitivamente

"seu".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lirismo

Se faltam palavras
é porque sobra lirismo
em teus beijos

Se o verso fugiu de mim
é porque se escondeu
no balançar de tuas cadeiras

Se a poesia se escondeu de mim
fez morada onde não a posso tocar
bem dentro do meu coração
ao lado de uma prece que leva teu nome:

C. P. H.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dar-te-ei o mundo

Trouxe o dia nas costas

e o peso do mundo nos ombros

e escondeu cada dissabor e lamento

num suspiro mudo

pois o pequeno dormia

silencioso e calmo

como ontem e anteontem

e antes e sempre, dormia.


Os cachos e os sonhos do inocente

docemente acomodados

no travesseiro de Camomila:


"Hei de te dar o mundo, meu filho

e o brinquedo mais bonito!

O melhor berço azul!

Na mais colorida das festas,

o mais chocolate dos bolos!

E adornos de toda sorte

enfeitarão as prateleiras do teu quarto

E terás enfim tudo!"


...


Foi-se cedo.


Ninguém esperava

e nada levou

e seu rosto já não escondia

nem as preocupações da vida

nem as noites que não dormiu


E no meio daquela gente

o pequeno então sorriu

e apontou para a grande e preta caixa:

"Mamãe, por que papai não acorda?"


E o anjo sentou ao chão

e brincou com seu caminhão verde:

Uma velha e enferrujada

lata de ervilhas vazia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A escuridão dos dias de sol

Tanto quanto me esforce
em ser mais que barro e vontade
e meia verdade livre de sentir

Tanto mais anseie
de todo o meu coração
ver nisso que penso que sou
mais que processo e sentido

Quanto mais moleste
a parte disto que pensa que pensa
prisão de mim em mim mesmo
mais percebo o quão limitado sou:
Sou isso a que chamam de humano.

Quanto mais dobro as palavras
quanto mais as malho e forjo
mais dúvidas moldo

Quanto mais liberto as palavras
mais nesgas de luz-mentira
pelas persianas da consciência
atravessam

Os dias de intenso sol são os mais escuros:
Mesmo onde haja abundante luz
tudo o que eu vir será reflexo de luz
e será mentira que inventei
para esquecer que existo
sem saber por que...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Do poema para a ideia 1:

O poder da palavra está onde a palavra falha. Quem quer que dela se valha,
é falho pois dela precisa: A palavra liberta enquanto escraviza.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Produto

Que sou eu
senão fim
de meus meios?

Que é coragem
senão temer
ter receios?

Que é viver
senão privar-se
de anseios?

Que é distar
senão partir errante
ou manter-se distante?

E que é morrer
Senão ao pó voltar,
Triunfante?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Eu palavra

Posso chamar de minhas
palavras que me deixam
para ganhar o mundo?

Valor algum às palavras:
apenas ao que sinto
quando as deixo ir.

...

Vai palavra
e leva de mim o pouco
o pouco que cabe em ti:

E deixa de mim o eu
o eu que de mim não larga
o eu que define o ego
esse eu que de mim é chaga!

Deixa de mim o eu
o eu que de mim é chaga
pois no eu que define o eu
vive o eu que mais agrada:

Palavra fadada a morrer muda.

domingo, 24 de abril de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

Vento-Verso

tem vezes que me entendo
como um dia de inverno
e me prendo olhando o céu

pois sou eu naquelas palavras
atrás das nuvens nubladas
de um dia escuro e cinza

e faço de minhas moradas
todas as horas fadadas
a pintar na folha a paisagem

e nelas também me escondo
de mim que sou negras nuvens
e tempo.

Mas uso preto no branco
caneta e papel e tinteiro
nunca pincel ou ditos ou guache...

E para cada porção de segundos
dissipando uma nuvem distante
me escondo por horas, errante
até que um verso-vento me descubra
e eu enfim me ache.

sábado, 12 de fevereiro de 2011