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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Tristranhos

Abraço a tristeza como uma velha amiga que me traz versos. Flertamos, antecipando um coito impuro e incomedido. Trepamos. No fim, ela me abraça, e não me quer deixa ir: Diz que sente minha falta, que tem saudades de meus versos, e que eles eram tão seus, e que tem ciúmes das coisas, segundo ela menos bonitas, que tenho escrito às outras. Ela diz que gostaria de estar nas linhas que tenho escrito, e diz que éramos um, feito carne e unha. Eu a fito, nua, e sorrio. Eu a fito e olho dentro dela com a propriedade de quem a conheceu como poucos. Olho dentro dela apenas por olhar, sem rancor ou saudade. Estamos ali, ocupando o mesmo quarto, mas não mais a mesma alma. Eu a solto e me afasto, e ela se vai, silenciosa. E, enquanto termino esses versos, já somos estranhos.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Coletivos de mim (poema coletivo)

*O poema abaixo foi feito por muitas mãos. As pessoas estavam em um bate-papo, e foram dizendo as frases e juntamos. O tema inicial era "Falta".


Lá fora é lua crescente,
e a tela é só tua ausência,
e se a tela me olha, nem estranho,
não te ver me levar à demência!

Tua falta me arde e me rasga,
essa dor que é saudade, e corrói,
se eu soubesse que amar tanto dói,
gritaria essa dor que me engasga!

Sozinha eu escuto o marulho,
desses nós de dentro mim,
como pôde o dizer do teu nome,
tão amado principiar o meu fim?

Se eu desejo apenas teu riso,
e nesse querer sempre me deparo,
é por ser caro esse amor que preciso,
e aos sete ventos por ti declaro!

Se sigo te querendo, e sou incompleto,
feito uma lástima num dia esquecida,
tenho o direito de fugir do teu tão perto,
pra não me ver num manicômio, enlouquecida!

sábado, 5 de dezembro de 2015

Nada Vale

Sangra, rio.
Sangra cor de cobre,
sangra ferro, sangra bauxita,
sangra tanto que ninguém acredita,
sangra e cobre casa e gente e bicho,
e mato.

Mata, rio,
mata o que vive e o que rasteja,
e a mata, e o que nada, e o que quer que seja,
que esteja no caminho da barragem,
mata a mata e mata a paisagem,
e deixa essa imagem assim,
embarrada, desolada e morta,
vontade torta nesse metal vileza,
tristeza que cavalga o leito,
pelo vil metal, esse deus eleito,
torto deus que nada Vale.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Da tua falta


Quantas sementes de amor
perdidas pelo caminho...

tantas quanto foram
as noites varadas
distraído pelo encontro mágico
das pontas dos teus dedos
nos cabelos meus

e isso que não te ama
mas odeia a falta de ti
que é presente e te vê
como a moldura de um belo passado
pintado em tons de desejo e ardor

isso que é mente e alma
e que odeia a falta de ti
e tem a tristeza cega
de não saber amar direito

...nem mesmo a isso que versa...

isso que contigo aprendeu
a gostar de caqui
que contigo sentiu o pulso do mar
em cada gotícula-pele
quando as vagas vieram ter às furnas...

isso não vê pior castigo
que privar-se de ti
e de tudo que veio contigo
pois isso odeia a falta de ti
mais do que odeia a isso mesmo
por odiar a falta de ti.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Vento-Verso

tem vezes que me entendo
como um dia de inverno
e me prendo olhando o céu

pois sou eu naquelas palavras
atrás das nuvens nubladas
de um dia escuro e cinza

e faço de minhas moradas
todas as horas fadadas
a pintar na folha a paisagem

e nelas também me escondo
de mim que sou negras nuvens
e tempo.

Mas uso preto no branco
caneta e papel e tinteiro
nunca pincel ou ditos ou guache...

E para cada porção de segundos
dissipando uma nuvem distante
me escondo por horas, errante
até que um verso-vento me descubra
e eu enfim me ache.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Como a vida é simples...

Engraçado como a tristeza,
se esvai com um verso ou dois:
Basta deixar de moleza,
escrever agora, e pensar depois!

À alma morta

O apreço que guardo
por silêncio e reserva,
preserva o que é nato,
e amplia o que enerva...

A cada percalço no verso,
perverso se sente o poeta:
Não poder escrever o universo,
da tristeza da alma discreta...

Maldita ideia funesta,
evitar a honesta empresa,
de deixar sair o que sente...

Ao mundo então, tão somente,
dado que ninguém se importa,
as migalhas da mente doente,
do poeta da alma morta...