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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Tristranhos

Abraço a tristeza como uma velha amiga que me traz versos. Flertamos, antecipando um coito impuro e incomedido. Trepamos. No fim, ela me abraça, e não me quer deixa ir: Diz que sente minha falta, que tem saudades de meus versos, e que eles eram tão seus, e que tem ciúmes das coisas, segundo ela menos bonitas, que tenho escrito às outras. Ela diz que gostaria de estar nas linhas que tenho escrito, e diz que éramos um, feito carne e unha. Eu a fito, nua, e sorrio. Eu a fito e olho dentro dela com a propriedade de quem a conheceu como poucos. Olho dentro dela apenas por olhar, sem rancor ou saudade. Estamos ali, ocupando o mesmo quarto, mas não mais a mesma alma. Eu a solto e me afasto, e ela se vai, silenciosa. E, enquanto termino esses versos, já somos estranhos.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Lótus

Da lama, vem o dilema,
drama, então seiva bruta,
subindo pelo xilema,
pra ter na folha a labuta.

Glicose a folha comuta,
de água, carbono e luz,
floêmica seiva produz,
nobre, limpa, impoluta,

que descendo, pelo floema,
conduz a planta à permuta,
pela seiva-saber-poema,
que a alma toca e transmuta!

Quão sábia é a natureza,
resultar de tanto labor,
profunda e bela pureza,
da Lótus, divina flor!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Subnominando

A cena diz mais de mim
e de tu, que dá cena.
No truque que encena,
no homem cruzando o beco,
eu vejo um ladrão,
o sindicalista um peão,
e o mendigo, pirão.
Pra cena, beco no homem,
todo mundo é ator:
O ladrão e o peão,
o mendigo e a fome;
Pra cena, beco do homem,
todo mundo é ator,
sendo ou não dor,
tendo ou não nome;
Na cena-beco, nu o homem,
o homem é o beco,
e o beco é o homem.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

CheuVer

Estruturam-se atordoados de átomos,
brotam conglomerados de células,
terrenos onde somos condomínio de ideias.

Será que chove?

segunda-feira, 28 de março de 2016

Realiverdades

Observo a folha.

Ela está mais verde que o normal,
ela está mais folha que o normal,
ela está mais verde do que folha.

Observo a mim observando a folha.

Que sou eu e o que é folha?

Seria a folha o verde que a folha pintou em mim,
ou seria a folha o verde que pinto em mim ao ver a folha?

Somos o ver da folha,
e há folhas verdes porque as vejo,
e há um eu porque voz em vós as vedes.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

33

Me movo pelo mundo ou o mundo se move por mim?
Passo pelo mundo ou o mundo passa por mim?
Sou parte do mundo ou o mundo é parte de mim?
Sou parte do mundo ou o mundo parte de mim?

São 33 anos,
são 33 vidas,
às vezes mais e noutras menos,
são.

Passo pelo tempo,
E o tempo é o lugar que o espaço ocupa:
O tempo é a forma de não pirar da cuca.

São 33 anos,
são 33 vidas,
às vezes mais e noutras menos,
louco.

Passo pelo tempo,
e no tempo me movo e estou contido:
O tempo é o meio em que sou vivido.

Me movo pelo tempo ou o tempo se move por mim?
Passo pelo tempo ou o tempo passa por mim?
Sou parte do tempo ou o tempo é parte de mim?
Sou parte do tempo ou o tempo parte de mim?

São 33 anos,
são 33 vidas,
às vezes mais e noutras menos,
lúcido.

Passo pelo mundo,
E o mundo é o lugar que o tempo acontece:
O mundo é o agora que o processo merece.

Me movo pelo processo ou o processo se move por mim?
Passo pelo processo ou o processo passa por mim?
Sou parte do processo ou o processo é parte de mim?
Sou parte do processo ou o processo parte de mim?

Mundo, tempo, processo,
amor, espaço e divino,
enquanto no tempo não cesso
(e espero que tarde o Destino),
pelo Presente, presente passo,
atento ao que passa pelo cristalino:

São 33 anos,
são 33 perspectividas.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Estando

Sou estar.

Um estar constante e perecível,
e um tanto sensível à lua cheia,
sou coração e alma e processo,
e pele e carne e sangue e veia,
que pelo tempo trilha:
Sou essa ilha, sou essa aldeia,
em meio ao instante gasto,
e não sou puro e nem sou casto,
nem alheio ao pasto e ao ar,
por ser vida e biologia,
levo essa Vontade de arrasto,
bastarda filha do respirar,
se expandindo pelo lastro,
desse escuro e vasto Universo:
Sou de Deus o Verbo e o Verso,
divino réu confesso vagando errante,
uma ilha-aldeia em meio ao instante,
que nem sabe porque existe.

Mas sou feito de amor e éter,
que por ter sido e ser, insiste,
em viver por respirar,
e respirar por aprender.

Sou crença que perpetua no tempo,
por insistir e crer que há razão de perpetuar-se,
nada mais, nada menos:

D'Eus.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Dia de Sul

O sol repousa, manso,
sobre o campo verde,
e a garoa fina
perfuma a terra.

O que dizer que não disse o dia?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Do real

O real é a sopa feita de todas as coisas
que ingerimos de alguma forma,
e o real é a Energia que se submete
à Norma de estar no tempo.

O real é essa pintura que fazemos,
dentro e sempre dentro de nós,
e sobre a tela que temos,
e com as cores das quais dispomos,
mal acabada, pobre e torta como somos.

O real é uma mentira que contamos,
para a parte de nós que vê e sente:
Mentira rota sobre o que é o Presente.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Depois

Deixei tudo para depois:
O amor, os invernos, e os verões.
Deixei para depois o instante, a Dádiva,
e fui o depois que não chegou, o postergado.

Fui ter com o fim da vida,
como o faz todo esse gado
que anda e rumina: Fui o precipitado.

E fui o precipício para quem não disseram
que haveria um chão e um fim,
e cheguei.

E tenho hoje, sobre mim,
de terra, sete palmos,
e esses vermes que roem minha carcaça triste,
triste por ter sido como a criança
que no Natal prendeu-se à beleza do pacote:
Triste por ter sido a criança que esqueceu o Presente.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Bonsai


Enxergar as coisas como são,
é a sabedoria de quem observa.
Deixar as coisas como estão,
é a sabedoria de quem entende.
Escolher das coisas como estão,
é a sabedoria de quem vive.
E aceitar as coisas como são,
é da sabedoria de quem ama.

E só quem observa, entende.
E só quem entende, aceita.
E só quem aceita, ama.

E só quem ama, vive.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O dia

Quero o teu dia perfeito.
Então pedi aos pássaros que cantem
pelos canteiros por onde passares...

Mas os pássaros são livres,
pois apenas livres serão pássaros,
e só assim seriam belos
e dignos do dia que te desejo.

Mas quero o teu dia perfeito.
Então pedi ao sol que encontre a chuva,
e leve arcos-íris por onde ires....

Mas a chuva é livre,
pois apenas livre a chuva semeia vida à terra,
e apenas um dia repleto de vida
é digno de ser o dia que te desejo.

Mas inda quero teu dia perfeito.
Então o aceito como perfeito,
tenha ele ou não
pássaros ou canto ou sol ou chuva.

E então serei livre
e só assim digno
de estar no dia que te desejo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Maya

Maya me leva à praia
e Maya me mostra o mar
E o mar é tão belo e falso
como Maya que o fez vibrar

Meu sentir que sinto ou temo
é o sentir que me faz pulsar
meu sentir é tão falso e pleno
quanto Maya que fez o mar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sábado, 13 de setembro de 2014

Ente

Ver antes de ler: https://www.youtube.com/watch?v=pKdJ3LjizpM&nohtml5=False


E Deus é deus
E deus é o cão
e o peixe
e o cão que tentou salvar,
ou enterrar,
o peixe.

E quem riu do cão que tentou
salvar ou enterrar o peixe
E o riso, e o som do riso
que pelo ar chegou ao tímpano
de quem ouviu o riso
que é Deus tanto quanto o tímpano...

E Deus é todo o ar
que o peixe não pode respirar
por não haver água nele...

E a água do chão, insuficiente
também foi Deus e o é agora
na nuvem ou no rio ou no esgoto.

E ele é o filme sobre o peixe morto
que o mistério da vida que não se questiona
tentou reviver
enquanto o mistério da vida que se questiona
filma e ri.